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Opinião de António Cartaxo: “Maldita pistola!”

19 de Dezembro de 2013

A CartaxoA actividade policial está associada a diversos constrangimentos pessoais e familiares. São as noites fora do contexto familiar, os fins-de-semana de trabalho, feriados, dias santos, etc. e acresce a tudo isso a inexistência de compensação financeira, para além da incompreensão popular para com esta actividade tão importante para a segurança das pessoas e dos seus bens.

Para o desempenho profissional dos polícias estes carregam à cintura um objecto que estará intrinsecamente ligado às suas frustrações, desesperos, desgraças e outras desventuras próprias desta exigente actividade profissional. A pistola, símbolo do braço armado da justiça e de uma suposta autoridade, uma ‘amiga’ falsa e bastas vezes traiçoeira, representa uma espécie de extensão física e vitalícia na vida de qualquer polícia, pelo menos enquanto durar a sua condição de ‘activo’ para o serviço.
É quase uma figura próxima do animal doméstico que nos acompanha para todo o lado, e, por vezes, sem que nada o faça prever, trai-nos irremediavelmente. Se nos afastamos muito dela, de forma a perdermo-la de vista, o respectivo processo disciplinar virá para nos infernizar a vida. Se a aproximamos demais será para nos levar a vida. Se a usamos em defesa de terceiros certamente nos complicará a vida… maldita pistola!

pistola de policiaRecentemente mais um profissional de polícia põs termo à vida. O adjunto do comandante da esquadra de trânsito da PSP de Lamego surpreendeu todos os colegas, ao disparar um tiro na própria cabeça, na casa de banho do edifício policial. O malogrado Chefe Francisco Sabença Almeida, de 48 anos, recorreu à pistola, companheira de uma vida, para lhe põr termo.
E é esta relação odiosa que faz interrogar, será a pistola a melhor defesa do polícia ou o seu maior risco? Mas então o polícia não tem que ter uma pistola para fazer frente a situações graves que colocam em risco a segurança das pessoas e dos seus bens? E onde ficam os policias nestes labirintos jurídicos de difícil saída ou de saída virada para eles?

Por cada profissional de policia que se suicida alguma coisa na Policia devia ser feita para evitar que se repetisse, mas nada acontece! Um suicídio de um polícia não pode ser analisado como se de um cidadão comum se tratasse. Não! Tem de ser algo mais, deve-nos fazer reflectir! Cada vez que um polícia se suicida sinto que um pouco da nossa liberdade, enquanto cidadãos, também morre. Vista por fora, a PSP é uma referência no combate ao crime, na preservação da segurança interna, e imprescindível para a sociedade.
Vista por dentro, a imagem é antagónica. A PSP passa pela sua maior crise interna alguma vez vista, também por culpa destas políticas devastadoras. Os efeitos disso não estão apenas nesta tendência preocupante dos suicídios. Estão especialmente na triste história de quem precisou enterrar familiares policias que usaram a arma de trabalho para tirarem a própria vida.
Está na hora de alguém mudar este estado de coisas.

António Cartaxo 
Dirigente Nacional do SPP/PSP

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